Glória às lutas inglórias

Néle Azevedo

15.08.2008

Ao contrário do nomadismo do Monumento Mínimo que percorre as cidades, Glória às Lutas inglórias é um trabalho específico para um lugar específico. Não se repete, acontece uma única vez, mas mantém a relação de contraposição ao monumento oficial. Além disso, passo a compreender que o mínimo busca o essencial. Não está mais necessariamente ligado à escala, mas a uma procura de precisão, de economia, de síntese poética.


Proposta apresentada na Virada Cultural/2007 de um antimonumento Glória às lutas inglórias no Páteo do Collegio em São Paulo, para se contrapor ao obelisco ali existente denominado Glória Eterna aos fundadores de São Paulo.


O anti-monumento foi construído com mais de duzentos caixotes cheios de frutas. Um grande desenho horizontal e aberto formava um grafismo dos povos Guaranis no mesmo tamanho do obelisco ao lado. Em meio ao desenho, muitas esteiras de palha no chão criavam espaços de convivência. Ao final da construção, o público foi convidado a celebrar através do sabor das frutas, da interação dos sentidos - a memória da vida aqui e agora. Diferente da ação anterior, não existe representação do corpo, é a celebração do corpo presente na história.


Vale lembrar que foi no “Pateo” que a cidade de São Paulo começou. Ali os jesuítas da Companhia de Jesus fundaram o colégio onde os princípios do cristianismo foram levados aos povos indígenas. Hoje é uma praça rodeada por uma arquitetura neoclássica imponente, com prédios que sediam o Tribunal e a Secretaria de Justiça. No centro, o obelisco de autoria do escultor Amadeu Zani, Glória imortal aos fundadores de São Paulo.


A ambigüidade do monumento - o que ele revela e o que ele esconde - fica clara ao olhar o conjunto arquitetônico da praça. Carrega o eco de nossos mortos, de uma outra possibilidade de organização de espaço, de visão de mundo, enfim, de uma outra cultura.


Procurei trazer à luz essa ambigüidade do monumento e resignificar a memória pública. Incluir o que se oculta na celebração oficial da história.

Erro de Português


Quando o português chegou
Debaixo de uma bruta chuva
Vestiu o índio
Que pena!
Fosse uma manhã de sol
O índio teria despido
O português


Oswald de Andrade