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Passagens: novas paisagens

Regina Johas

28.01.2008

Publicado no catálogo Tripe/2007 do Sesc Pompéia, São Paulo, 04.2008


A ação multiforme das artistas reunidas nesta edição do projeto Tripé propõe uma reconfiguração de trajetos – passagens – que compõem a paisagem dos nossos deslocamentos cotidianos. Tendo como denominador comum apropriações singulares dosespaços que nos circundam, elas assinalam a condição de mobilidade em que vivem e apresentam, em sua produção artística, táticas articuladas de uso do espaço como a expressão de sua resistência aos novos paradigmas do mundo globalizado.


Aprendemos com Foucault a considerar a íntima relação entre espaço, poder e saber. Para ele, “desde o momento em que foi possível analisar o saber em termos de região, de domínio, de implantação, de deslocamento, de transferências pode-se apreender o processo pelo qual o saber funciona como um poder e reproduz os seus efeitos(1) – ou seja, pela forma com que ele se manifesta em termos de espaço. Vivemos numa sociedade complexa em que o sistema neocapitalista gera continuamente novos saberes, os quais vão sendo impressos na topografia urbana e se refletem nas relações
identitárias que estabelecemos com nosso entorno. Para Suely Rolnik, “a mesma globalização que intensifica as misturas e pulveriza as identidades, implica também na produção de kits de perfis-padrão de acordo com cada órbita do mercado, para serem consumidos pelas subjetividades, independentemente de constexto geográfico, nacional, cultural, etc”(2). É, portanto, no sentido mais concreto que se apagam, nas divisas do espaço, as da identidade: modos de vida e de individuação são hoje determinados pela construção de espaços subjugados a funções que exprimem os valores de consumo da sociedade no momento. O projeto Tripé Passagens expõe sua fina sintonia com este panorama da atualidade ao reunir três artistas que trazem em seus trabalhos estratégias para se re-delinear os processos de subjetivação no mundo contemporâneo e repensar as imbricações entre espaço, poder e saber.


As intervenções de Ilma Guiderolli, Néle Azevedo e Marli Fronza tem como
referência comum a apropriação de espaços urbanos, mas o fazem sempre pelo viés do indivíduo que os singulariza, que estabelece com os mesmos uma relação de identidade efêmera. Em seus trabalhos está implícita a preocupação com a participação, não como uma ação que venha a acontecer, mas como registro de seus vestígios. A participação é para elas fundamento de práticas artísticas que valorizam a dimensão coletiva da experiência social – coletivo aqui entendido como conjunto de pequenos agrupamentos, como propõe Barthes(3), ou como conjunto de indivíduos que “praticam” uma antidisciplina no contexto da sociedade globalizada, como quer Michel de Certeau(4).


Ao realizar grandes desenhos nos gramados de espaços públicos – ecos dos
itinerários daqueles que se deslocam de um lugar para outro criando assim seus próprios caminhos – Ilma Guiderolli nos faz lembrar que “o recorte das terras corresponde para cada um a um conjunto de possibilidades, prescrições e proibições cujo conteúdo é, ao mesmo tempo, espacial e social”(5). Em seu projeto de intervenção urbana Demarcações Alternativas, do qual podemos ver nesta mostra um de seus registros, podemos ler seu
interesse pelos percursos cotidianos das pessoas pela cidade. Para a artista, “o ato de caminhar é um ritual que carrega grande significância política, pois nele está contido o contraste entre a absoluta liberdade natural com a liberdade civil construída da sociedade, a qual requer negociação e compromisso. Os ‘atalhos’ criados são uma forma de criar desvios avessos aos caminhos oficiais”.


Tu pisavas nos astros distraída, a intervenção criada por Néle Azevedo para o
hall do teatro do Sesc Pompéia, foi proposta, como diz a própria artista, como uma passagem, “um desfiladeiro frágil” que o observador pode percorrer e aí encontrar o limite entre o real e a poesia. Como já nos acostumamos a ver nos trabalhos de Néle – em seu projeto Monumento mínimo, por exemplo, ou ainda na ação Glória a todas as lutas inglórias – a dimensão almejada é sempre aquela em que a produção artística tem o sentido de um fazer político-poético. Arte e convívio, arte e troca, arte como moeda de circulação.

 

Marli Fronza, com Marcas de passagem, define igualmente seu interesse pela intervenção urbana. Capturando as sombras das pessoas que transitam pelas ruas e calçadas e transformando-as em silhuetas brancas impressas sobre a cidade-suporte, Marli propõe o que chama de “participação espontânea” e “contaminação do entorno”. Se a sombra é a imagem do corpo que permite o reconhecimento de si, impressa no espaço urbano ela propicia pensarmos nossa participação, valor e peso no todo.


1 Michel FOUCAULT, Microfisica do poder (Rio de Janeiro: Graal, 5a.ed. 1985).

 

2 Suely ROLNIK, “Toxicômanos de identidade – subjetividade em tempo de globalização”(http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0102-88392001000300002&script=sci_arttext).

3 Roland BARTHES, Como viver junto - simulações romanescas de alguns espaços cotidianos (São Paulo:Martins Fontes, 2003).

 

4 Michel de CERTEAU, A invenção do Cotidiano. Petrópolis, RJ: Vozes, 1994.

 

5 Marc AUGÉ, Não-Lugares. Introdução a uma Antropologia da Supermodernidade (Campinas, SP:Papirus, 1994).

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