Monumento Mínimo

Katia Bastos 

25.05.2005

Com uma multidão de pequenos homens de gelo, a artista Nele Azevedo realiza uma intervenção urbana em cidades de diferentes países e culturas. Colocadas em espaços públicos, essas esculturas atraem a atenção dos passantes, promovendo uma suspensão do seu trajeto quotidiano. O andar apressado, pausa. O olhar, antes vagueante, desliza sobre a superfície lisa e gélida daqueles pequenos corpos transparentes e transpirantes em seu derretimento. Gestos de aproximação e contato irrompem do silêncio: são perguntas, comentários, a tentativa de apropriação, etc. Assim, numa ação de poucos minutos, a artista inverte os cânones oficiais do registro da memória em monumentos públicos e realiza uma apreensão concreta, poética e política do espaço, do corpo na cidade e do monumento no espaço coletivo.

 

Lidando com o corpo e o monumento na cidade e partindo do princípio de que somos duração no tempo, Néle Azevedo evidencia outras possibilidades de vivência da memória. O corpo, como o lugar onde todas as percepções se tornam possíveis, é também o lugar da memória: acervo de imagens vividas ou tornadas vivas pelo sentido que lhes são dadas por cada observador diante da obra. Categorias como essência/existência, imaginário/real, visível/invisível, permanência/impermanência, se desdobram no universo reflexivo de essências carnais, de semelhanças eficazes, de mudas significações. Enfim, a monumentalidade das cidades em contraposição à dimensão mínima dos corpos, em sua efemeridade, acorda a percepção de que somos um ser no fluxo da impermanência e diante da eminência e mistério do informe.