exercício de habitar o vazio

Na instalação Exercício de habitar o Vazio, realizada no pátio interno do Centro Cultural São Francisco em João Pessoa, uma escultura de ferro fundido de apenas 80cm x 10cm contrasta com a amplitude do claustro. É a ocupação mínima do espaço. A depender do ângulo de visão oscilamos entre a sensação de queda e de suspensão. 

Instalação de Néle Azevedo contrasta o mínimo com o vazio

Sylvia Leite
Jornalista

O estado de fragilidade e pequenez em que o ser humano se encontra diante da imensidão indefinida do mundo e a tensão trazida por esse contraste são dramatizados pela artista Néle Azevedo na instalação Exercício de Habitar o Vazio, que será inaugurada dia 5 de abril, no pátio interno do Centro Cultural São Francisco, como parte do Projeto Artes Visuais 2006.


A composição envolve apenas uma escultura de ferro de 80 cm por 10 cm, pendurada por um fino cabo de aço no centro do claustro. A intenção é criar um contraponto entre o tamanho mínimo da escultura e o espaço vazio a sua volta, que é proporcionalmente enorme e cheio de significados.


Ao mesmo tempo, revela a dubiedade da condição humana, pois a depender do ângulo pelo qual se olhe para a instalação, a escultura pode transmitir a idéia de uma pessoa em queda, sustentada apenas por um fio, ou ser entendida como alguém que usa esse mesmo fio para se alçar a um estado de suspensão. Essa dubiedade está presente também na relação entre tamanho e material, pois se a pequenez constitui fragilidade, o ferro invoca poder e solidez.


Exercício de Habitar o Vazio é uma homenagem ao músico e professor Ricardo Rizek, falecido em fevereiro. Segundo Néle, “essas tensões entre o grande espaço vazio e uma figura mínima é um contraponto musical”. As raízes dessa instalação, no entanto, estão plantadas desde o início, no projeto Monumento Mínimo que a artista desenvolve há cinco anos e foi tema de sua dissertação de mestrado no Instituto de Artes da Universidade Estadual Paulista.


MONUMENTO MÍNIMO


O que Néle propõe com esse projeto é uma inversão dos cânones oficiais do registro da memória em monumentos públicos do mundo ocidental. No lugar das grandes estátuas, pequenas esculturas. Em substituição aos locais fixos, a cidade como pano de fundo. Em vez da homenagem ao herói, ou à autoridade; a celebração do homem comum.


Na fase atual do monumento mínimo, Néle trabalha com esculturas de gelo, material que acrescenta ao trabalho novas reflexões como a troca da estabilidade da pedra dos monumentos oficiais pela leveza e fluidez da água, ou a renúncia à permanência garantida artificialmente pela pedra com o fim de permitir o acompanhamento do ciclo vital.


As intervenções com gelo começaram em abril do ano passado, quando Nele colocou 200 esculturas de figuras humanas para derreter nas escadarias da Praça da Sé, em São Paulo. A experiência foi repetida em junho, com 300 esculturas, na praça L’Opera, em Paris, e em novembro, com 600 esculturas, nas escadarias do teatro Municipal de São Paulo.

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texto de Paulo Matsushita

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