IMG_20211114_161043.jpg

Pindorama

Trabalho em processo no Espaço Vitrine

05.2020 | 

 

Texto de Sylvia Werneck:

 

Desde sempre sensível às causas socioambientais, Néle Azevedo se viu, durante o isolamento imposto pela pandemia, impedida de prosseguir com suas ações artísticas e ativistas de costume. As circunstâncias a levaram a novas experiências motivadas por antigas preocupações. Escolheu seu ateliê como refúgio sem saber qual seria a duração da estadia ou quando seria possível ter companhia. A ameaça microscópica impunha um desafio pessoal e artístico, já que o trabalho de Néle acontece sobretudo no espaço público e muitas vezes depende da interação com os passantes, familiarizados ou não com arte.

O “normal” suspenso e o tempo alargado fizeram com que ela se detivesse nas miudezas dos dias com observação mais aprofundada, para muito além da mera existência física das coisas – um olhar de lupa no ritmo de um relógio com mais segundos, minutos, horas e dias. Na cozinha, surgiram as primeiras ações de desenhar este território pandêmico. As peles de cebolas e ovos dispostas nas paredes da sala expositiva foram formando um tipo de escrita residual do cuidado com a nutrição do corpo e do pensamento. As plantas vieram depois, e a convivência com elas é de outra ordem, uma dinâmica que vai se delineando conforme o crescimento e as necessidades específicas de cada espécie. Este desdobramento se relaciona com a residência que fez em Búzios (a BAB), uma semana de imersão na natureza. Lá, de início, foi o vento que se apresentou de modo mais enfático, como uma presença tátil e sonora constante. Em seguida, a mata circundante se ofereceu à conversa – naquele pequeno bosque Néle abriu todos os sentidos para uma percepção abrangente de um sistema que costumamos ver como separado de nós e que domesticamos aos nosso gosto.

A vivência funcionou como um catalisador de seu Pindorama, instalação in progress formada por plantas que está dentro da sala expositiva do ateliê, mas visível desde a rua através da vitrine na fachada. Exemplares variados acondicionados em caixotes de madeira ocupam o espaço formando diferentes volumes e alturas. A disposição das caixas vai sendo definida conforme a adaptação das plantas à quantidade de claridade e velocidade de crescimento. Sem um método pré-estabelecido, a composição é mutável e, até certo ponto, incontrolável.

Não se trata de recriar um ideal de natureza num espaço construído, mas de observar, aprender e apreender. Tampouco é um mapeamento de espécies – para que as plantas sobrevivam, a artista assume a tarefa do cuidado diário, mas de maneira alguma pretende ser uma estudiosa da botânica. Seu pensamento é, sobretudo artístico, e o manejo vai se configurando como escultura, mas uma escultura em constante transformação, sujeita aos caprichos do acaso. Uma escultura viva que se modifica de acordo com o ciclo de desenvolvimento de cada planta, variação de luz, de temperatura e de rega. Uma escultura com a qual é possível se relacionar num tempo que não obedece ao calendário inventado para regular a vida utilitária, mas transcorre alheio, resistindo, insistindo, existindo.

Fotos