monumento mínimo: arte como emergência

Oficina Cultural Oswald de Andrade

26.10.2016 | 27.01.2017

por Priscila Arantes,

 

Néle Azevedo vem desde 2005 desenvolvendo uma obra muito particular. Em uma ação que dura pouco mais de vinte minutos, centenas de esculturas de gelo derretem sobre as escadarias de um espaço público. Delas sobram pequenas poças de água, vestígios que evaporam e passam a ocupar a memória daqueles que presenciaram a ação. A lembrança do trabalho fica inscrita ainda nas imagens que, para além de serem meros registros, são imagens-testemunho, vestígios matéricos da passagem do tempo.

 

Monumento Mínimo inverte os cânones do que tradicionalmente entendemos por monumento. Ao invés de lidar com a solidez das pedras das grandes construções e com os espaços de poder, o projeto incorpora o processo efêmero do derretimento do gelo, evidenciando, poeticamente, a escala mínima dos corpos perecíveis: pequenas esculturas de gelo de homens e pessoas comuns, que, como uma espécie de lamento, diluem-se diante de um mundo que parece ter se rompido. É neste sentido que a obra de Néle Azevedo pode ser vista como um anti-monumento: não somente por navegar na contramão do monumento oficial, mas por lançar luz sobre momentos traumáticos da nossa história.

 

Seria errôneo, no entanto, reduzir o Monumento Mínimo ao conjunto de esculturas em gelo que o constituem. O projeto incorpora não somente toda a mobilização para que ele possa acontecer em espaço público, mas, também, o processo de criação da obra que absorve, muitas vezes, um grande número de pessoas, quer sejam os voluntários que dão forma às esculturas, quer sejam aquelas que são chamadas a distribuí-las no espaço. O trabalho, neste sentido, torna-se uma construção coletiva e é desta coletividade, desta potência do estar junto, deste sentimento de pertencimento, que a obra parece nos chamar a atenção. Somos, aqui, atores da nossa história.

 

Apresentado em países como Brasil, França, Itália, Alemanha, Noruega e Inglaterra, Monumento Mínimo geralmente se integra a contextos extremos: protestos, discussões sobre mudanças climáticas  e homenagens a homens e mulheres mortos em situações limite. “Arte como Emergência”, como bem nos sinaliza o filósofo Santiago Zabala.

 

Ampliando o diálogo com iniciativas dotadas do mesmo espírito de reflexão e resistência, a exposição apresenta ainda trechos do projeto “Memórias Resistentes, Memórias Residentes”, publicação realizada pela Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania da Prefeitura de São Paulo, baseada em pesquisa desenvolvida pelo Memorial da Resistência de São Paulo.

 

Com conceituação e direção de arte de Luis Felipe Abbud, a publicação é dedicada a apresentar lugares de memória, monumentos situados no município de São Paulo que carregam a história da resistência e da repressão do Estado sistematizada ao longo da ditadura civil-militar brasileira (1964-85). Nesta exposição apresentamos os monumentos localizados no bairro do Bom Retiro, nas imediações da Oficina Cultural Oswald de Andrade.

 

‘Monumentos’ diversos que, à semelhança de Monumento Mínimo, carregam parcela significativa das histórias, muitas vezes traumáticas, que fazem parte de nosso país.

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