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Entrevista com Néle Azevedo

São Paulo 28 de maio de 2013 

 

Hoje a senhora é uma artista plástica com reconhecimento, inclusive internacional. Mas, no início, como e quando a senhora se descobriu artista? 
 
Nasci e me criei em Santos Dumont, uma cidade pequena no interior de Minas Gerais. Ali não havia um “universo da arte”, mas toda a nossa vida cotidiana era fincada na experiência sensível. Construíamos nossos próprios brinquedos, costurávamos nossas roupas. Tudo era criado, inventado no dia a dia. Nada estava pronto. Criar era cotidianamente necessário.  
 
Na adolescência ajudei a organizar a primeira biblioteca da cidade – trazia livros pra casa. Lia-os durante a noite pra devolvê-los no dia seguinte. A literatura veio aumentar na minha vida cotidiana a possibilidade de ter mundos imaginados, ampliando a experiência do real.  
 
Foi um longo caminho até a escolha pelas artes visuais. Atuei em outros setores da sociedade, como bancária, funcionária pública, mas vivia sempre ligada à literatura, à poesia. Descobri a possibilidade do desenho no curso do Silvio Dworek, em seguida no curso do Dalton de Luca onde fiquei por três anos e de fato me fez escolher as artes plásticas como campo de atuação. Entrei na faculdade Santa Marcelina para cursar Artes Plásticas, aos 43 anos. Portanto, foi uma opção da maturidade. 
 
Como a senhora se sentia desenvolvendo profissionalmente duas atividades tão distintas quanto era o seu trabalho na RFB, que é técnico e, por outro lado, um trabalho artístico, de pura sensibilidade? 
 
Como disse, minha escolha pela arte partiu de uma opção da maturidade – isso significa que eu já havia percorrido 22 anos de serviço público entre Agente Administrativa no INSS, Escrituraria no Banco do Brasil e auditora na Previdência Social. O concurso público foi para mim e ainda é para muitos, uma forma de acessão social.  
 
Então, eu já tinha o trabalho de auditor incorporado no meu cotidiano. É claro que minhas descobertas no desenho, na história da arte afetavam minha visão no trabalho burocrático. Do mesmo modo, minha experiência no mundo do trabalho ampliava minha compreensão daquilo que aprendia na faculdade.   
 
De verdade, acho que foi uma sorte fazer as duas coisas. Trabalhar como auditora da Previdência, me permitia ver a sociedade de um ponto de vista privilegiado que poucos podem ver – conhecer por dentro e de perto a estrutura econômica das empresas, suas relações de trabalho com os empregados, sua lógica do lucro. Ao mesmo tempo minha experiência sensível colhia tudo isso e transformava em trabalho no campo da arte.  
 
Bom lembrar que temos belos exemplos de grandes artistas aqui no Brasil que conciliaram suas atividades com o serviço público – João Cabral de Mello Neto, Vinicius de Moraes, Guimarães Rosa, Carlos Drummond de Andrade.  Na França, o pintor Henri Rousseau, (1844-1910 Paris) fiscal de alfândega, influenciou Pablo Picasso e outros cubistas.  São Mateus, apóstolo de Cristo, foi um cobrador de impostos... 
 
Sua arte envolve diversos meios. Da escultura, à fotografia, ao vídeo etc. Como se dá esse processo criativo que é tão intenso?

No último ano da Faculdade requeri a aposentadoria proporcional para me dedicar inteiramente ao trabalho de arte. Então, todo o meu tempo é dedicado ao trabalho – não há separação entre vida e trabalho – todo o esforço de vida é tentar compreender o estar no mundo e tudo que isso implica. É uma reflexão continua. 
 
O que me leva a trabalhar é a necessidade de reinventar o cotidiano. Nesse sentido tudo é material: as manhãs cinza, a dor em dias azuis, caminhar na Avenida Paulista pela manhã junto com o movimento de quem está a caminho do trabalho e daqueles que estão às margens vagando sujos no abandono. Estar ao lado de todos. A cidade e suas incongruências sempre me inspiram e me encantam. 
 
Qual a origem do projeto “Monumento Mínimo”?

 

O ponto de partida deste trabalho aconteceu no momento da montagem de uma exposição individual na Capela do Morumbi - São Paulo em 1999. Eu expus dentro da Capela um conjunto de esculturas fundidas em ferro. Uma série de figuras humanas compridas e alongadas. 
 
Do lado de fora da capela, fixei duas pequenas esculturas também em ferro fundido, nas grades limites entre a capela e a Avenida Morumbi – duas figuras de mulheres medindo cerca de 20 cm de altura, como um monumento, contemplavam a avenida. Ao ver contraposição entre a dimensão mínima das esculturas e o aberto da cidade dei início a uma pesquisa sobre os Monumentos, sobre o espaço público e o espaço privado. A decisão de atuar na cidade se consolidou e tomou corpo nesse momento.  A investigação foi desenvolvida no mestrado em Artes Visuais no Instituto de Artes da UNESP - 2001-2003. As esculturas começaram em ferro, passaram ao barro, ao gesso, resina, vidro e finalmente ao gelo. Durante três anos pesquisei materiais que pudessem acentuar a fragilidade do humano diante das cidades  e das instituições que ele mesmo constrói . 
 
Busquei uma conciliação entre a esfera pública e a esfera privada, entre o eu subjetivo e a cidade. Encontrei nos monumentos públicos uma síntese desta minha inquietação: a celebração histórica muito longe do sujeito comum. Subverti então uma a uma as características dos monumentos oficiais diretamente ligados ao poder. A escala é mínima, daí o nome Monumento Mínimo. Não há pedestal nem hierarquia, a homenagem é dirigida aos anônimos e os corpos desaparecem na cidade em uma experiência compartilhada. A memória fica inscrita no sujeito que viu e registrada em fotografias e vídeos. 
 
Vivemos num país tropical, que está sempre em construção, com vocação para o moderno e sem tradição – “Aqui tudo parece que ainda é construção e já é ruína” como canta o Caetano em Fora da Ordem. Trabalhar com o precário, com o efêmero, me pareceu traduzir esse estado de construção e destruição permanentes de nossa história.  

 

Suas experiências artísticas envolvem, em geral, intervenções urbanas, com a participação da população, dos transeuntes. Como é a sensação de ver as pessoas interagindo com a arte? 
 
Gosto muito de atuar na rua. Ela é o espaço do encontro das diferenças, o espaço aberto, democrático.  Com o Monumento Mínimo realizei intervenções em dezenove cidades: Campinas, São Paulo, Brasília, Salvador, Curitiba, Ribeirão Preto, no Brasil e Paris (França), Havana (Cuba), Tóquio e Kyoto (Japão), Braunschweig e Berlim (Alemanha), Singapura (Singapura), Porto (Portugal), Florença (Itália), Stavanger (Noruega), Amsterdam (Holanda), Santiago do Chile (Chile) e Belfast (Irlanda). 
 
Nestes lugares pude experimentar desafios espaciais novos e específicos. Por exemplo, realizar a intervenção em Portugal, teve um valor simbólico ancestral - algo como fazer o caminho das Índias ao inverso: ir daqui, com a bagagem da colonização portuguesa, carregada dos séculos, das heranças, de todas as miscigenações e levar além mar um trabalho fundado no precário e no efêmero. 
 
Em Florença aconteceu uma contraposição histórica: o derretimento das pequenas figuras efêmeras sentadas nas escadarias do edifício IstitutodegliInnocenti, construído para a eternidade, por Brunelleschi, na Renascença italiana. 
 
A interação com o público é sempre muito forte em qualquer país e é ela que realimenta o trabalho e a mim mesma. Gosto mesmo do desafio que o espaço provoca porque nenhum espaço é neutro, nem o da rua nem o da galeria. Ele é sempre carregado de significados, história, relações, etc. 
 
Para finalizar, ainda sobre o “Monumento Mínimo”, qual o sentimento em ver o sucesso de mais esse trabalho? 


Ele de fato tem uma enorme repercussão no mundo – foi incluído na ambiciosa publicação da Editora Taschen Trespass: A history of Uncommissioned Urban Art, em Art & Agenda – Political Art and Activism da editora Gestalten.   
Meu nome foi inserido na lista dos dez maiores artistas brasileiros contemporâneos do prestigioso site nova-iorquino The Huffington Post “10 Brazilian artists you should know” by the Huffington Post http://www.huffingtonpost.com/2012/09/04/artrio2012-the-second-an_n_1844311.html#slide=1454289 
Na verdade o sucesso deste trabalho trouxe-me também conflito – primeiro porque ele começou a ser mundialmente chamado. Consumiu-me muito tempo. Senti-me escrava de um único trabalho.  Esse conflito vai e volta – mas a cada intervenção ele é ressiginificado, porque é vivo. A experiência do derretimento compartilhada coletivamente é de fato nova e não se repete.  
É claro que também existe uma alegria enorme em ser universalmente compreendida para além do alcance da palavra – no Japão, na Alemanha ou na Irlanda as pessoas são tocadas pelo trabalho e participam ativamente na construção do Monumento Mínimo. 
Por exemplo, na ultima Virada Cultural em SP, no inicio de maio, fui convidada a apresentar o Monumento Mínimo.  Confesso que estava relutante em realizar o trabalho porque o havia feito recentemente, em fevereiro no Memorial da América Latina. Mas atendi a solicitação e fiz o trabalho.  
 
Pela primeira vez ele foi instalado durante a noite – sob a luz translúcida... Ficou impactante. Finalizada a instalação fui pro centro da cidade.  As ruas estavam muito cheias.  Caminhava sozinha junto com todos - de repente, senti-me de gelo e derretia com a multidão - éramos todos de gelo derretendo em temporalidades diferentes.  
 
Foi sensorialmente muito forte: como se eu visse e compreendesse em profundidade o tempo de cada um.  A percepção ficou tão aguda que me pareceu suspender o tempo - o tempo se abriu como matéria.  Entrei no metro cheio, nesse estado, olhando cada tempo, cada singularidade - quando desci no metro brigadeiro um adolescente havia caído das escadas, estava em uma maca com sangue ao lado... Um gelo que se quebrou antes da hora... Foi tão forte que quase desmaiei... subi as escadas meio tonta e alcancei meu carro.  Minha relutância caiu por terra depois de minha experiência perceptiva– não a teria vivido se não tivesse realizado o trabalho. Fui capturada novamente. Percebi que o trabalho é vivo e novo também para mim a cada apresentação. Ele ainda me renova e amplia minha visão. Aquietei-me. Vou fazê-lo outras vezes enquanto o mundo o pedir. 
 
Mas, tenho outros trabalhos em uma extensa lista de exposições em galerias, museus e instituições que podem ser conhecidos no meu endereço www.neleazevedo.com.br.